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25 agosto 2010

Loucura Morfina - Por Leandro Vieira

(Colaboração gentilmente cedida pelo compadre Leandro Vieira)

Um dia desses eu estava andando na Rua 25 de Março, no centro velho de São Paulo, perto do terminal Parque Dom Pedro II. Um lugar largado, parece um grande quarto de adolescente – substitua as meias sujas por lixo de toda a espécie, constituído basicamente pelo resto do Mercado Municipal, também vizinho da região. Era tarde da noite e não tinha quase ninguém acordado nas calçadas...

De repente, aparece uma mulher de cabelos curtos, metade pretos, metade loiros, com o rosto cheio de marcas da idade. Destacavam-se os olhos azuis que pareciam pintados com caneta marca-texto. Camisa preta com apenas um botão fechado – o suficiente para não mostrar os peitos pequenos – e calça também preta, sem bolsos e sem passar na água há um bom tempo. Carregava uma sacola grande com um cobertor grosso e bem pesado.

Ela desembesta a falar. Diz que foi expulsa de casa pelas irmãs mais velhas, “duas malvadas, ruins de alma”. Duas meias-irmãs na verdade, filhas do primeiro casamento de sua mãe. As duas têm a vida torta. A mais velha foi criada por uma tia-avó. Quando esta morreu, deixou uma boa casa no centro de Mogi das Cruzes, cidade da grande São Paulo. A herança se transformou num barraco na favela e em drogas, muitas drogas.

A segunda casou-se com um policial que ficou louco depois de ser mordido por um cachorro com raiva – comeu utensílios domésticos, foi afastado da corporação e acabou se enforcando no meio da sala. Sem dinheiro, sem emprego, sem marido, ela caiu no mundo do tráfico. Chegou a ser presa e, segundo as últimas informações, está por aí.

A mãe, ela não vê há uns 5 anos. Se ainda estiver viva, está bem velhinha. Foi enfermeira por muito tempo no Hospital das Clínicas até conseguir uma aposentadoria que, se não é uma fortuna, não a deixava em apuros. A mulher nunca soube da mãe desde que saiu de casa – diz que tem vergonha e receio de procurá-la depois de tanto tempo.

O resultado de tudo isso é que, de Mogi das Cruzes, ela foi parar no centro de São Paulo, altas horas da noite, sem lugar para dormir e sem um tostão no bolso. Se fosse para se vangloriar de alguma coisa, ela poderia falar com certeza: era o ser humano mais limpo de toda a redondeza. E articulava bem as palavras - as frases faziam perfeito sentido em todas as sete vezes que ela repetiu os relatos acima, sempre na mesma ordem.

Acredito que, se ela estivesse em outro lugar, teria consciência de que basta falar uma vez só. Mas ali não. Quem mora na rua, pelo menos naquela, não tem como ser são da cabeça. Se ficar são, no meio daquela sujeira toda, não vive. A loucura lá é como uma proteção. É como a mãe que tira forças sabe-se lá de onde para salvar o filho. E é como a morfina, que não cura a causa mas alivia a dor. A loucura ali é o anjo da guarda. O que seria daquelas pessoas, em plena faculdade mental, se vissem todos aqueles carros carregados de frutas do Mercadão, sem poder levar uma maçã que seja, a não ser quando aparece aquele trocado salvador?

Ali, e em tantos outros lugares, a loucura não é uma patologia, é a sopa quente das noites frias.

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17 agosto 2010

Os Nossos Pangarés - Por Leandro Vieira

(Colaboração gentilmente cedida pelo compadre Leandro Vieira)

Há algum tempo, uma expressão tomou conta dos programas esportivos brasileiros: "cavalo paraguaio". Essa espécie, pouco valorizada no mercado, inicialmente dá a impressão de ser um equino impecável que encanta platéias tanto nas apresentações de pista quanto no turfe. Mas, passa o tempo, o sangue de Assunpcion grita, o cavalo cansa no meio da corrida e refuga na hora do salto, enganando todo mundo, em especial o otário que o comprou e os babacas que apostaram nele.

A tradução para o mundo futebolístico é simples. "Cavalo paraguaio" é o time que começa um campeonato ganhando todos os jogos, ataque arrasador, defesa sólida, sucesso de público e crítica. E aí, passadas algumas rodadas, os jogadores começam a ir mal das pernas, a receita desanda, e o time cai pelas tabelas. Não demora, e aparecem alguns desses entendidos, quase sempre vindos das famosas mesas redondas, lascando: "olha aí, é cavalo paraguaio!".

Essa expressão aparentemente boba mostra como alguns brasileiros encaram nossa condição de medianos - falo aqui, claro, em representatividade mundial. Não somos os donos da fala, mas também há bastante tempo deixamos de ser um país ignorado. Estamos nos equilibrando na corda bamba entre os desenvolvidos (que amamos) e os em desenvolvimento (que menosprezamos). Reconhecemos e queremos ser reconhecidos apenas por Estados Unidos e Europa (e Europa aqui significa Alemanha, Itália, Reino Unido, França, Espanha e Portugal - ou alguém morre de preocupação com o que pensam albaneses e estonianos?!). Aos outros, bananas.

Seguida de um sorriso de deboche, a expressão faz menção as falsificações vindas dos nossos vizinhos. Não é mentira, e os entendidos sabem. O que eles provavelmente não sabem é que essa questão toca numa ferida paraguaia ainda longe de cicatrização, que envolve um passado de ditadura conchavada com gangues que não pensavam 2 vezes antes de "suicidar" quem passasse pelo caminho. Os produtos piratas trazem, além da origem criminosa, histórias de famílias destruídas por uma violência institucionalizada (aos que tiverem curiosidade, o repórter Domingos Meirelles já escreveu matérias fantásticas sobre o assunto).

Ano passado, o ator Robin Williams fez, no programa de David Letterman, um resumo das "artimanhas" brasileiras para ganhar o direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2016:strippers e cocaína. Naturalmente, nós não gostamos. E os nossos pangarés - esses sim, de péssima qualidade - deveriam se tocar antes de soltar o tal "cavalo paraguaio". Esse "cavalo" é a nossa "cocaína" e a nossa "stripper". São palavras que tiram sarro. Palavras de gente que refuga na hora de usar o cérebro.

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10 agosto 2010

Sobre Piadas E Topetes - Por Leandro Vieira

(Colaboração gentilmente cedida pelo compadre Leandro Vieira)

Ela tem vontade de saber o que está por trás de um cabelo bem armado


“A mulher do português está à beira da morte e resolve confessar ao marido que o filho deles é de outro. Ele responde: 'Ora, pois, eu sempre soube'. Ela, surpresa, diz: 'Mas como você sabia?'. O marido responde: 'Ué, Maria, quando nós estávamos na maternidade você me disse para ir trocar o menino, que estava todo cagado!'. Ele realmente trocou o bebê. Por outro”.Esta é a piada favorita de Wilma Nogueira Prats, e fica ainda mais engraçada para ela quando é Francisco Prats, seu marido, quem a conta.

Histórias desse tipo podem ser encontradas no livro que conta a vida de Wilma. Mas não adianta procurá-lo em livrarias, sebos e afins. A obra foi produzida por Regina Rapacci Magalhães, dona da Biografias & Profecias, editora que escreve livros sob encomenda, e não está a venda. Somente 2 exemplares foram tirados – um está com Wilma, o outro com Regina.

Com capa lilás, título simples - “Wilma” -, papel chouchè, 111 páginas, cheio de ilustrações e fotos, o livro mostra os melhores momentos da vida da senhora de 69 anos, descendente de dinamarqueses, que certa feita queimou o álbum de figurinhas dos filhos Douglas e Shalimar porque um tinha a figurinha especial e o outro não, fato que gerava uma guerra entre os dois.

“A produção do livro me fez saber histórias de que nunca tive conhecimento”, diz Douglas Prats, consultor de lideranças. De fala mansa e gestos discretos, Douglas conta que gostou da experiência. “Ter ouvido pela primeira vez a minha vó dizer que o nascimento da minha mãe foi o momento mais importante da vida dela foi impagável”. Dado numa reunião de família, com a presença do marido, dos filhos e dos netos, o presente não precisou de data especial para ser entregue. “Ele foi feito em reconhecimento por tudo que minha mãe fez à nossa família”, diz Douglas.

À biografia de Wilma, seguiu-se a de José Antônio Preto, português ex-dono de padaria e ex-dono de posto de gasolina. Com o mesmo estilo do livro anterior, porém de capa preta, foi encomendado por Maurício Preto, filho de José, quando o pai completou 70 anos. “Tinha uma vontade imensa de homenageá-lo em vida, e o livro com a sua biografia foi perfeito”, diz Maurício, diretor de marketing de uma empresa de lubrificação e manutenção industrial.

Depois, vieram os livros sobre Mário César Araújo, ex-presidente de um grande grupo na área de telefonia – este um livro mais robusto, com 313 páginas, encomendado por sua filha Clarisse. “Eu tinha umas reportagens, umas fotos guardadas do meu pai, e queria organizar e fazer uma recordação para ele”, diz Clarisse. Gilberto Garcia, gerente numa distribuidora de produtos para construção, encomendou um livro sobre os pais, Hélio e Mafalda, por ocasião da boda de ouro deles. “Gosto de registrar as coisas da família, achei que seria um presente inovador aos meus pais, e, ao mesmo tempo, estava resgatando a memória deles”. Todos os biografados só souberam da existência do livro no dia da entrega.

O livro de dona Wilma foi o primeiro de Regina. Tudo começou em 2006, depois de uma sequência de acontecimentos ruins. Em julho, a mãe, Maria de Lourdes Puccinelli Rapacci, morreu após sofrer de afecção dermatológica, doença cujo sintoma se dá com o surgimento de bolhas na pele que, quando explodem, deixam o lugar em carne viva. Em setembro, foi despedida do banco onde trabalhava como gestora do setor de televendas. Alegação do superior: era humana demais para trabalhar num banco. “Foi uma porrada atrás da outra. Fiquei com a alma à flor da pele”.

No mês seguinte, Regina iria se casar, mas estava perdida o suficiente para não dar prosseguimento à cerimônia. Foi aí que apareceu uma figura importante: a irmã mais velha, Ana Maria. “Ela acabou sendo minha mãe. Sem ela, o casamento não teria acontecido”, diz Regina. Em homenagem à irmã, ela escreveu um livro, baseado em diários que a mãe deixou sobre as duas.

Regina gostou, e resolveu que faria disso o seu trabalho. Começou o negócio sem nenhum tipo de estudo, ignorando a leitura de biografias e livros-reportagem – recentemente ela concluiu pós-graduação em Jornalismo Literário. “No começo eu não sabia direito que tipo de negócio era aquele, mas tive certeza de que queria fazer isso da vida”. Regina não queria serghost-writer – tinha de ser algo que ela apurasse, sem abrir concessões, mas também evitando polêmicas e pontos desagradaveis. Por conta disso, todos os biografados afirmam que ficaram satisfeitos com o resultado.

Douglas Prats foi o primeiro a receber uma proposta formal. A princípio, recusou. “Achei a proposta barata demais e mandei a Regina refazer”, lembra Douglas. Regina acatou a recomendação, mas o salto não foi tão grande: dos 3 mil reais iniciais, o livro de Wilma foi fechado por 4 mil. (Hoje, um livro custa entre 15 mil e 40 mil reais).

Uma equipe de free-lancers faz o design e a revisão. A concepção, o texto, a parte de pesquisa histórica e a escolha de fotos é de Regina, junto com o cliente. O trabalho não a incomoda. Pelo contrário. Bonita, sempre arrumada e sorridente, ela se empolga ao falar do que faz.

Regina diz que não se trata de terapia biográfica nem de um “tratado de canonização”. Mas as obras da Biografias & Profecias passam longe do rigor de objetividade encontrado em biografias convencionais. “A idéia é que o livro gere movimento”, diz. Por “gerar movimento”, entende-se: quem ler qualquer um dos livros deve tirar uma lição. “E, para mim, o que importa é a riqueza dos encontros que promovo entre as pessoas e as histórias que ouço e registro. O livro é só uma consequência”, diz.

O próprio esquema de entrevistas de Regina é diferenciado. Ao invés do tradicional pergunta-e-resposta, ela usa cartões decorados com desenhos, com os temas que serão abordados. O entrevistado escolhe o assunto de que quer falar naquela hora, e a conversa se desenvolve a partir daí. “Esse é um jeito de me aproximar da pessoa, de quebrar o gelo”. Só não usou esse método no último livro que fez, sobre um figurão do ramo têxtil, o primeiro com participação direta do biografado. “Se eu fosse conversar com ele com cartõezinhos, não ia rolar”.

Até agora, Regina só escreveu sobre anônimos, e apenas por falta de oportunidade. Um famoso em especial lhe desperta curiosidade. “Adoraria saber o que tem por trás do topete do Roberto Justus. Ele é muito certinho...”, diz. Regina escreveria um livro sobre ele, se pudesse colocar tudo que encontrasse. Justus já tem um livro, escrito por um ghost-writer. E, nele, está com o topete mais armado do que nunca.


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03 agosto 2010

Os Penpals E A Rede - Por Leandro Vieira

(Colaboração gentilmente cedida pelo compadre Leandro Vieira)

Quando a internet ajuda no vai-e-vem de envelopes, carimbos e selos


Camila Vedoveto – 20 anos, fotógrafa, budista, muito liberal de esquerda e adora cozinha vegetariana - quer conversar com você. Ela ama fazer amizades com pessoas de qualquer lugar do Brasil e do mundo, não importa sexo ou idade. Para isso, basta que você tenha um perfil no Orkut e encontre-a na busca. Adicione-a – você pode ler o detalhado perfil para garantir que o santo da moça bate com o seu – e, se ela aceitar, prepare papel, caneta, envelope e selo. Porque ela quer fazer amizade, mas por carta.

Assim como os cerca de 850 membros da comunidade da qual é dona, “Snail Mail Penpal World”, Camila usa a internet para buscar novos correspondentes. Há 3 anos praticante das missivas, ela achou no Orkut a ferramenta que faltava para “encontrar uma infinidade de brasucas de canto a canto do país. Somos uma nação enorme, nossas diferenças nos fazem muito interessantes, e é bom conhecê-las do ponto de vista de alguém que mora no lugar”. Quando tem tempo livre, costuma escrever de 2 a 4 cartas por semana. “Se eu estiver de férias, esse número dobra”. Recentemente, ocupada que estava com o vestibular, deu uma breve parada.

Conhecer gostos e costumes antes do primeiro contato em papel é uma das principais vantagens dos penpals – assim são chamados, nas entranhas do métier, os amantes dos envelopes – que usam a rede mundial de computadores para aumentar seu núcleo de amigos. Vendo o perfil, eles podem escolher os novos correspondentes de acordo com as afinidades.

Quem quer trocar idéias com pessoas de outros países não fica na mão. O interpals.net junta o pessoal que quer amizades com estrangeiros. O esquema é o mesmo do Orkut: a pessoa faz um perfil, coloca dados pessoas e vai escolhendo os amigos na medida em que eles forem agradando.

Nele você pode encontrar Natasha, de Liubliana, capital da Eslovênia - 22 anos, estudante de administração, “meu sobrenome é muito complicado”, fã de Stephen King e do time de futebol Manchester United. “Quero conhecer pessoas de grandes cidades, já que o lugar onde eu moro é um saco”, reclama. Ela tem conseguido aos poucos – as belas fotos suas que colocou no perfil ajudam a chamar atenção. Já tem um correspondente em Nova York, um em Glasgow e um em Peterborough, na Inglaterra. Só lhe falta um na Alemanha, país pelo qual tem extrema simpatia. Aos interessados, uma carta demora de 5 a 10 dias para chegar lá, e de 12 a 14 dias de lá para cá.

O lado romântico das missivas ainda cativa os jovens. Segundo os adeptos, nada substitui o ritual postal. “Eu me sinto somente mais uma quando recebo um e-mail, já que a pessoa pode mandá-lo para um monte de gente. Com a carta isso não acontece”, diz Camila, que ainda complementa: “Uma carta me faz sentir especial e única, foi escrita para mim e, por mais que seja um poema ou verso copiado, foi feita à mão, palavra por palavra”.

A carta tem o charme do papel, dos diferentes tipos de letra, os selos, os carimbos, detalhes que se perdem na web. Os sites de relacionamento servem para um primeiro contato e breves apresentações. O conteúdo das cartas é mais profundo, detalhado, intimista. O e-mail é rápido e frio – quando muito, é usado por um correspondente para avisar que uma carta está a caminho, ou que a próxima vai demorar um pouco a chegar.

Nada impede que aventureiros queiram pegar carona no esquema. No caso do Interpals, não é difícil de se encontrar gente atrás de dinheiro e casamentos arranjados para se conseguir cidadania. Dushanti Fernando, 28 anos, de Colombo, Sri Lanka – não coloca muitas informações no perfil – fala sobre outro contratempo. “Na internet, há tanta gente querendo se corresponder, de tantos lugares do mundo, que alguns ficam até perdidos. Mandam carta para umas 100 pessoas, e depois não conseguem dar conta”. Dushanti tem 20 cartas de gente que se empolgou em mandar a primeira, mas sumiu de uma hora para outra.

Algumas curiosidades são possíveis de serem sanadas. Há no Interpals 149 correspondentes do Afeganistão. Munir Ahmad – 24 anos, estuda medicina no Paquistão, fã de futebol e basquete, fotógrafo nas horas vagas – está no site há 2 anos e é um dos perfis que mais recebe visitas. “Várias pessoas me perguntam como está a situação no meu pais agora”, diz Munir. Mesmo não morando em terras afegãs há 8 anos, Munir não perde contato com amigos e parentes, e passa todas as férias em seu pais natal. A grande maioria dos seus visitantes são americanos que querem receber, pelas cartas, noticias de alguém que convive naquele clima pesado.

A cubana Olivia Angelica Medina Somoza – 25 anos, ama livros, música e cinema, gosta de rock dos anos 70 e é fã dos quadrinhos da Mafalda – também entrou no Interpals para saber mais sobre outros países, isso desde 2005. Conseguiu 10 correspondentes fixos, dos 5 continentes. “É ótimo. Posso trocar idéias sobre os meus problemas, e ajudar meus amigos com os deles”, diz Olivia. “Sei que podemos encontrar de tudo na internet, mas eu ainda não tive nenhum problema”.

Olivia diz que não há qualquer censura no serviço postal cubano. Para ela, a correspondência acaba sendo o melhor meio de comunicação com o mundo, já que a internet é de baixa qualidade. O único porém é que o Correio de lá não é dos mais rápidos – uma carta do Brasil para lá demora de 3 a 6 dias para chegar ao país, mas pode demorar outros 7 dias para chegar a uma residência, devido à logística interna.

Já outras curiosidades dão um pouco mais de trabalho. O norte-coreano Kim Yu Nim, de 34 anos, tem o perfil lotado de mensagens elogiosas ao ditador Kim Jong Ill, ou o “grande general, o lider querido”, como ele coloca. Nele, você pode cantar o hino oficial do país, “The Song Of General Kim Jong Ill”, com letra de Sin Un Ho e música de Sol Myong Sun - “Ele faz crescer a honra nacional; longe, em qualquer lugar do mundo; ele é o campeão da justiça; lutando por independência; longa vida, longa vida ao General Kim Jong Ill”. Não adianta perguntar como é a situação em seu país, ou qual é o motivo de tanta adoração – aliás, estes são os assuntos mais tratados no mural de comentários que pode ser visto por todos os visitantes do Interpals. Tudo que ele responde é: “I'm good”. E internet é o único meio de comunicação deles com o mundo, ainda assim com um controle bastante severo. Serviço postal norte-coreano, só para mensagens oficiais do governo.

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27 julho 2010

O Caçador De Origens - Por Leandro Vieira

(Colaboração gentilmente cedida pelo compadre Leandro Vieira)


Ele conseguiu fazer algumas alegrias familiares, mas quando chegou a sua vez...


De onde veio sua família? Um senhor de 60 anos e “espírito de 30” - como gosta de falar – gasta sua energia correndo atrás dessa resposta. É o gaúcho falante Ivam Sandini, que desde 1976 encabeça o Projeto Imigrantes, órgão que fuça a origem de imigrantes que vieram fazer a terra tupiniquim.


Numa sala de 100m2 da cidade de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, Sandini despacha para pessoas de todo o Brasil e de mais 86 países informações sobre a procedência de seus parentes. Ou, pelo menos, algumas pistas. Às vezes, quem procura o Projeto não sabe absolutamente nada do passado, nem sequer se a grafia do sobrenome está correta. “Aí nós não conseguimos adivinhar”, diz Ivam.


O negócio começou por acaso. Na década de 70, Sandini se mudou para São Paulo – ele nasceu na cidade onde trabalha hoje – para montar uma transportadora que prestava serviços a uma fabricante de sorvete. Comprou um telefone e, ao receber a lista telefônica, ficou espantado com as 2 páginas de Sandinis que encontrou. Ligou para alguns, e ninguém sabia dizer sobre a existência de parentes no Sul.


Ivam cavucou a história dos Sandinis no Brasil e descobriu que tudo começou com 2 primos que abandonaram a região de Vêneto, no nordeste da Itália, em 1878. Um foi direto para São Paulo; o outro rumou para o Rio Grande do Sul. A partir de então, nunca mais tiveram contato. Observando o interesse de amigos e conhecidos sobre a pesquisa, ele percebeu que poderia começar um negócio. Com o know-how empírico – Ivam nunca fez curso de heráldica na vida – e 300 mil dólares de investimento, Sandini parou de carregar sorvetes e abriu o Projeto Imigrantes.


O trabalho consiste em levantar, nas fichas de passageiros dos navios e nos registros de entrada de estrangeiros, todos os dados disponíveis sobre as pessoas que desembarcavam no Brasil – para isso, Ivam conta com a ajuda do Museu do Imigrante do estado de São Paulo, onde se encontram vários desses registros. O cruzamento dessas informações com aquilo que o interessado sabe de seus antepassados faz com que seja possível conhecer os ramos de uma árvore genealógica. Um banco de dados em computador feito especificamente para o Projeto centraliza e organiza as informações. “Todas as pesquisas acabam demorando, pois os registros eram precários e quase sempre sem precisão”, diz Ivam.


Nem sempre é possível a localização exata de um antepassado distante. Os primeiros Vieiras, Limas, Santos e Oliveiras (os sobrenomes mais solicitados), por exemplo, se perderam no tempo. A falta de registros dessas famílias torna impossível um resultado mais específico. E, quanto maior o tempo de chegada, menos precisa é a vinda para o Brasil. "A exceção fica com as famílias tradicionais lusitanas de linhagem observada, pois tinham vantagens, principalmente em empregos", salienta Ivam.


Já os consonantais sobrenomes alemães e poloneses sofrem com a mudança da grafia. O analfabetismo dos estrangeiros, junto com a falta de costume dos donos de cartórios da época, faziam com que os descendentes diretos desses imigrantes tivessem um sem número de sobrenomes diferentes – há casos de um mesmo sobrenome ter sido escrito de 5 formas diferentes. Ivam acha jeito nisso consultando diretamente os registros dos navios, feitos pelos capitães que manjavam das línguas nativas.


Mais um percalço: as letras dos registros de bordo eram perfeitamente legíveis - na época em que foram escritas. Nos dias de hoje, em que o Arial e o Times New Roman batem qualquer caligrafia, se tornam quase uma escrita cirílica. "Tenho em minha equipe 4 professoras antigas em idade parar identificar as letras de antigamente".


O banco de dados que organiza 2 milhões e 800 mil imigrantes cadastrados é atualizado por 3 digitadores, e foi montado por uma empresa americana cujo nome Sandini mantém em sigilo, “por exigência deles”. A parte digital ajuda a organizar as listagens que são feitas com as informações coletadas ao longo de 34 anos de Projeto Imigrantes, e que são entregues aos clientes que procuram o serviço. Nessas listagens, estão registradas até 15 informações, incluindo nome e sobrenome do imigrante, cidade de origem e destino, navio em que veio e o número da folha, no livro de bordo, em que sua viagem foi anotada. A empresa também forneceu diversas informações uteis ao Projeto, especialmente quanto às origens dos navios.


A empresa cobra, e muito - o valor também não foi revelado - para auxiliar na manutenção do banco de dados que facilita as consultas. E eles são altamente rigorosos. Para ter acesso permanente a esse banco, Ivam teve a vida vasculhada de cabo a rabo. “Quando eles falaram o resultado da pesquisa, sabiam coisas de que eu nem me lembrava mais”.


Essa engrenagem é sustentada pela cobrança dos serviços prestados pelo Projeto. O histórico dos sobrenomes é pago - custa 60 reais - e pode ser enviado, num papel especial com impressão em jato de tinta, junto com o brasão da família. Além disso,souvenirs com a marca da família estão a venda, como chaveiros, botons, pequenas armaduras medievais, porta canetas, porta jóias e afins. Tudo pode ser encomendado pelo portal do Projeto – www.projetoimigrantes.com.br.


Ivam também dá dicas de como organizar encontros de parentes. Primeiro, contata-se todas as pessoas de mesmo sobrenome que for possível. Em cadeia, elas ligam para os parentes diretos, que trazem informações sobre os antepassados, e aí monta-se o quebra-cabeça. Uma festa é o ideal para juntar todo mundo.


Várias confraternizações foram bem sucedidas, incluindo casos em que a família organizou gincanas e atividades esportivas. Entretanto, quando foi sua vez, Ivam não teve a mesma felicidade. Ele conseguiu encontrar na Itália Sandinis diretamente ligados aos primos oriundi. Esperava ser recebido com o carinho de uma nona, mas acabou encontrando uma verdadeira recepção siberiana. "Sabe aquele ditado: em casa de ferreiro, o espeto é de pau? Pois é...", lamenta. Ficou tão decepcionado que não entrou mais em contato com os parentes da terra da bota. Nem com os familiares que encontrou em São Paulo, em 1976, fala mais. “Faltou tempo”, alega Ivam.


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